domingo, 22 de maio de 2011

A ALMA DAS COISAS COMUNS














Quando nos surpreendemos com o que vemos ao nosso redor, podemos perceber o imenso caleidoscópio feito das pequenas coisas comuns que já passaram a integrar a paisagem em branco e preto do nosso dia a dia.

 
Deixar que saltem aos olhos o suspiro da manhã, o movimento dos insetos, as nuances de reflexos da luz no ar, a dormência da tarde após o almoço, as luzes que pouco a pouco tomam conta da vida ao cair da noite. Das pequenas e quase insignificantes coisas que passam por nossos olhos sem que nelas nos detenhamos, pois estamos muito focados na rotina, podemos aos poucos partir para as coisas maiores até que cheguemos às pessoas.

 O que vemos nelas não é senão nosso espelho.

 Tentar discernir os diversos sons que chegam ao mesmo tempo aos nossos ouvidos ou procurar descobrir um sutil sinal de som quando estamos em silêncio. Ouvir um rufar de asas, o sopro da brisa, os pequenos semitons que invadem o ar por entre os sons costumeiros dos locais onde passamos ou daquele ambiente no qual permanecemos a maior parte do dia. Partir dos sons quase imperceptíveis, ampliarmos nossa audição, até que cheguemos às vozes das pessoas, ao seu timbre, às palavras e seu significado.

 
E tentemos ouvi-las por um momento, sem pensar, julgar, criar novas idéias.

 
Sem falar. Calar apenas e se entregar à arte de ouvir.

 
E então, voltemos nossa sensibilidade para os odores que nos rodeiam, nem sempre aromas de flores, mas tentemos diferenciá-los, dos mais leves aos mais intensos, sem juízos. São apenas cheiros. Cheguemos aos perfumes das pessoas e em como nos relacionamos com isso.

 Podemos comandar nossas reações ao que vem das pessoas e de todo nosso ambiente externo, nem sempre precisamos reagir.

 
Podemos simplesmente perceber e integrar o que o exterior nos provoca.

 
Deixando a questão do tato e do toque nas coisas ao nosso redor para outro momento, tentemos nos voltar ainda para nossas emoções em contato com o mundo.

 
Estejamos por um dia voltados para o esforço de identificar que estímulos agem sobre nosso ser hoje, nosso corpo e nosso sentir, que afetos eles nos despertam, desde os mais insignificantes até a interação com as pessoas. Apenas sentir, perceber o que nos eleva e o que nos faz re-sentir. Sem julgamentos.

 
São apenas sentimentos que o mundo e as pessoas nos despertam.

 
Esforçar-nos por perceber o mundo externo nos leva à percepção de nosso universo interior. É nele que estão todas as explicações para o que vemos, ouvimos, sentimos. É em nós que nascem os afetos, pois é nosso centro que se afeta com o mundo externo.

 
Mas podemos escolher a forma única, determinada por nosso centro interior, de receber essa diversidade de estímulos do mundo exterior.

 
Podemos enxergar tudo isso como um grande caleidoscópio.

E escolher refletir cada cor de maneira especial, de forma a nos manter inteiros e integrados à luz que, a cada momento, se amplia e modifica, em contato com o brilho individual de cada um de nós.

Descobrir a alma das coisas comuns revela a força da nossa alma.


Imagem: Google

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DEUS É FIEL

domingo, 8 de maio de 2011

Uma MÃE sem filhos





E quando ela chegou em casa... o vazio se fez.
Os filhos lhe tinham sido tirados.
Doía como se cada membro de seu corpo lhe fosse arrancado lentamente.
Doía como se lhe bebessem o sangue.

O cansaço de um dia inteiro de trabalho, os braços estirados pelo peso da sacola das compras não lhe eram mais motivos de dor.
A dor da perda dos filhos superava todas elas. Como desespero de morte.
Os filhos eram cinco. O pai e a avó, alcoólatras. Ela era o arrimo. Ela trabalhava.
Ela era o sustento dos filhos. Ela, a mãe.
As crianças ficavam em casa com a avó e suas garrafas de pinga.
O serviço de Assistência Social visitou a família.
O Conselho da Criança e do Adolescente opinou.
O Conselho Tutelar deu o parecer.
O juiz decidiu.
Ninguém perguntou às crianças se queriam.
Ninguém reuniu a família para discutir o assunto.
Ninguém pensou em indicar um tratamento para o alcoolismo do pai e da avó.
Ninguém pensou na dor da mãe.

Aconteceu naquela tarde quente, enquanto a mãe fazia faxina numa das muitas casas...
Depois que a mãe extenuada passou no supermercado para levar a “mistura” para o jantar, o vazio se fez.
Os filhos lhe foram roubados. No calor da tarde. Sem aviso ou despedida.
Restou o vazio das camas, o oco das louças na pia.
Ficou o imenso espaço entre a porta de entrada e a parede do fundo, rabiscada com desenhos de criança.
Na pele doía uma dor dilacerante, sem metáforas, sem anestesia, sem remédio, sem cura.

 Os filhos eram cinco, como eram cinco os dedos de cada uma de suas mãos.
Mãos vazias do afago, mães vazias do toque nos cabelos de cada filho, mãos vazias da textura da pele de crianças no banho.
Cada um dos cinco filhos doía de forma diferente, como se cada dedo de sua mão lhe fosse extirpado.

E a mãe relembrava cada filho, com quem rememora uma vida inteira. A mãe tinha então cinco vidas. E cinco vidas lhe foram tiradas. “Para o bem das crianças”, lhe disseram.
E quem pensava no bem da mãe? A mãe sentia como se sua própria vida lhe tivesse sido sugada.
A cabeça da mãe estava vazia. Oca, como coco furado. Vazia das vozes das crianças. Vazia dos gritos de “manhê”. Vazia do barulho de água cristalina nos gritinhos da menina pequena.
Diante dos olhos da mãe desfilavam fantasmas dos filhos enquanto a tarde caía.

 A mãe sentada no degrau da porta da cozinha, entregue ao vazio da perda.
Por mais que a mãe tentasse não pensar, a mente da mãe insistia em narrar cinco histórias, em cenas de risos, em cenas de choro, em cenas de vida.
Vidas que tinham sido arrancadas em vida da vida da mãe.
As cenas coloriam o menino mais velho de oito anos mostrando o desenho que fizera de sua mãe, o retrato em giz de cera da mãe em frente a uma casa grande e bonita, com os cinco filhos ao seu lado. As cenas insistiam em se materializar como num filme: o menino de seis anos, trazendo uma pequenina flor da encosta da casa, “essa é só pra você, mãe”.
As lágrimas da mãe brotavam dos olhos como se pudessem lavar a dor.

 Mas as cenas não iam embora da tela da mente da mãe.
Então, a seguir, era a menina de cinco anos pedindo que a mãe prendesse seus cabelos negros e compridos que terminavam em cachos, com uma fita de cetim azul, com a qual a professora da escolinha a tinha presenteado. E como num trailler, vinha a cena seguinte: a menina de quatro anos com medo do escuro, pedindo à mãe para dormir ao seu lado na cama.

 E então, como num longo e torturante documentário, a mãe repassava a história toda dos três anos de vida da filhinha pequena, de olhos grandes como jabuticabas, linda com seus traços de ancestrais índios. A mesma menina que nascera prematuramente e, a respeito de quem, na Santa Casa da cidade, ao dar alta à mãe, o médico tentara brincar de profeta, dizendo: “Essa menina não vai vingar.” A pequena nascera aos seis meses da gravidez e a mãe a levara para a casa cinco dias após dar à luz, num leito do SUS. As contrações começaram após um longo dia de trabalho e cansaço. E a menina resistiu, após algumas horas num berço aquecido. Sequer havia outros recursos no hospital. A mãe e a vida desafiaram o prognóstico do médico. A menina, com três aninhos, era doce, risonha e rechonchuda, quando a levaram. A mãe ainda não sabia, mas jamais voltaria a avistar aqueles olhos.

 O pai assinou o pedido de adoção das duas meninas menores, quando as cinco crianças ainda estavam sob os cuidados da Casa da Criança, de onde o menino maior fugiu e foi ter com a mãe. Ninguém apareceu para resgatá-lo novamente.
Um casal de filhos foi entregue a uma irmã da mãe que morava em outra cidade.
Os anos se passaram e a dor da mãe nunca teve cura. Mas quem se importava com a dor da mãe?

 O filho maior, que cresceu sob seus cuidados, acabou preso, mal completou dezoito anos.
Os dois filhos que estavam com a irmã da mãe, voltaram ao seu convívio alguns anos depois. Ainda adolescente, a menina já é mãe de duas crianças e o menino tem o dom de desenhar muito bem. Sonha com um bom trabalho. Que nunca chega.
Uma das filhas menores foi adotada por um casal que acabou por se separar. Já moça, ela trabalha e cursa uma faculdade e hoje, finge não conhecer a mãe biológica.
Da menina mais nova, nunca mais a mãe teve notícias.
 
E a vida da mãe continua, na luta por uma vida melhor para os filhos (e agora, os netos) que permanecem com ela.
Um sonho que ainda não teve a felicidade de realizar.
Mas, a esperança nunca morre, nos olhos da mãe, cujo sorriso denuncia as rugas.

FELIZ DIA DAS MÃES 2011!

Imagens: Google


DEUS É FIEL


domingo, 17 de abril de 2011

QUEM SE IMPORTA ?















Domingo chuvoso e frio, mas ainda assim, domingo. Um domingo que promete!

Estou apressada, vou encontrar meu amigo jornalista às 11:15 h. Por que o 15? Isso me lembra Raquel de Queirós, mas ele quis assim. E eu não sou nada pontual.

Mas estou adiantada. Uma passadinha no supermercado antes, que dá tempo.
E quando subo a ladeira, a locadora de vídeo aberta me chama. Não resisto. Atraso mais um pouco. I need movie!!! A 32ª. Mostra Internacional de Cinema corre solta em Sampa. Ai que saudade do tempo em que eu ia a três sessões por dia!!!

Mas já estou esquecendo meu amigo, que deve estar plantado no meio do povão, na praça onde corre solta a “festa popular” do novo (mas já ultrapassado!) prefeito.

Saio rápido da locadora. Algumas pessoas andam pela rua. Não posso deixar de notar a mulher caída no meio fio, com uma pequena e gorda garrafa de refrigerante na boca. Ela vira o resto do líquido transparente. Água? Eu me aproximo, as pessoas passam indiferentes. Afinal, quem se importa??? É só uma mulher caída na rua...

Chego perto e o cheiro de cachaça é insuportável. A mulher não resiste a tanto álcool e perde os sentidos, atravessada na calçada, meio corpo na rua, a cabeça no meio fio, os cabelos muito lisos, em nuances que vão do castanho claro ao ruivo, entremeados por fios brancos quase imperceptíveis, estendem-se pela rua, ao alcance da roda dos carros. Tento levantá-la, mas ela não ajuda, está inerte e, apesar de magra, pesa um bocado. Os carros passam com as rodas muito próximas dos seus cabelos. Em seu interior, motoristas indiferentes.

Quem se importa? Na mureta próxima, vejo sua sacola plástica onde se emaranham peças de roupas.
Logo algumas pessoas passam por nós, um casal de evangélicos com a filha e um bebê. Peço ajuda para mover a mulher, eles estão solícitos, mas temem tocar na desconhecida caída com a cabeça no meio fio. Os números de telefone somem da minha mente. Para quem devo ligar? Então o primeiro a discar, automático, cai na casa de uma tia, e peço que ligue para a emergência, bombeiros, sei lá...

Surgem mais pessoas, espiando. As opiniões dividem-se, motoristas espiam sem intenção de parar.

 Ao longe, no topo da ladeira, alguém chega a dizer:

 - Deixa prá lá, é só uma bêbada!

 Afinal, quem se importa??? É só uma bêbada. Poderia ser alguém da sua família? Ninguém admite. E se fosse? Você gostaria que um estranho a tivesse socorrido?

 Aparece um jovem sarado, camiseta de um laranja vivo, muito animado para um domingo nublado. Esse, sim, desce. E logo me ajuda a retirar a mulher do meio fio. Decidido. Adoro! Será que, então, alguém se importa?

Vendo que o rapaz tocou na mulher e saiu ileso, o casal de crentes também se dispõe a ajudar e logo a desconhecida, ainda desacordada está deitada numa posição melhor, com sua sacola de roupas servindo de travesseiro. Observo-a, parece dormir alheia a tudo. Quem será essa mulher? Deve ter uns quarenta anos. Ou menos, talvez a vida lhe tenha deixado mais marcas que os anos. Saio do devaneio.

 Estou impaciente com a demora do socorro. Ligo novamente e ... droga!!! Minha tia nem chamou a emergência... de medo de ter que se identificar...

 Já me estresso.

 - Passe o número! Vai, me dá logo o número! Eu ligo!

 Com o tratamento de choque, ela deve ter telefonado para o corpo de bombeiros, em seguida, e quando minha ligação se completa, um tal de soldado “Miron”, dá-me a resposta, gentil e burocrática:

 - Isso não é serviço nosso, os bombeiros atendem somente casos graves...

 Estou pasma. Será que deveria deixar a mulher no meio da rua para que um carro passasse por cima e assim a ação do corpo de bombeiros se justificasse? Suas roupas são cinza como essa manhã de domingo, uma camiseta de mangas curtas, sob um agasalho e uma calça de moleton surrada, onde se percebem as manchas de urina, cujo odor se junta ao da cachaça. E me invade as narinas como se fosse natural.

 O tal soldado “Miron”, do outro lado da linha, insuportavelmente gentil, me diz:

 - Moça, ligue para a ambulância!

 Ligo novamente para minha tia e ela me informa que os bombeiros, em atitudes desencontradas, haviam dito que enviariam a guarda municipal, confirmando que, lógico (para eles!!!), o que eu pedia não era um trabalho digno da corporação.

 Afinal, quem se importa?

 Coloco minhas compras sobre a mureta e penso se a lasanha light congelada (comida de emergência!!!) já não está mole. Mas, sento-me disposta a esperar... Minha teimosia não tem limites quando se trata de princípios. ALGUÉM TERÁ QUE TIRAR ESSA MULHER DA RUA.

 Na avenida perpendicular, há poucos metros, ao lado do rio, vejo uma viatura da Guarda Municipal. A pessoa no banco do passageiro até dirige o olhar para o pequeno grupo em torno da mulher. E seu olhar encontra o meu. Mas o motorista segue impassível, rodando vagarosamente o veículo, como num passeio matinal de um domingo chuvoso qualquer.

 Penso que seria bom registrar com imagens o fato e, então, lanço mão da digital companheira, que circula comigo dentro da bolsa.

 Logo, o casal de evangélicos com a filha mostra sinais de que a família precisa ir, alimentar a criança. Eu os libero.

 - Vou ficar aqui até o socorro chegar! – digo, acomodando-me na mureta dura e úmida, ao lado da mulher. E me lembro do meu amigo, que deve estar plantado em algum ponto da praça me esperando. Ligo e explico a situação. Como bom jornalista e amigo paciente, ele me entende. E se dispõe a esperar, um pouco mais... Afinal, fazer o que?

 Mas, logo percebo que há mais gente ao meu lado. Um rapaz parece interessado no caso. Conversamos. Aproxima-se também uma conhecida e sua filha. Ficamos jogando conversa fora, enquanto, sob o vento frio, velamos o sono forçado da mulher. Vários carros passam, formando uma fila, todos os seus ocupantes olham. Espreitam. As expressões são diversas. Vão da curiosidade ao espanto. Vidros fechados, todos partem quando o sinal se abre.

 Quem se importa?

 Estou impaciente... o moço interessado sai e penso que ele também se foi... nada de bombeiros, nem de guarda municipal. Ninguém se importa. Olho os pés nus da mulher... estão inchados. E sua pele ressecada, como a das mãos, adquire um tom rosa, castigada pelo frio.

 Estou indignada e decido deixar e mulher ali, infelizmente, deitada no chão frio, e ir até a praça. Será que o prefeito pode resolver??? Será que ele se importa?

 No caminho, encontro o moço interessado no caso que, como eu, não havia desistido, e foi procurar o setor do plantão de ambulâncias da prefeitura. Afinal, estávamos ao lado do prédio do Centro de Saúde!!! Mas o que ele me diz não é nada animador, só mostra que a burocracia vai fundo... A responsável pelo setor de ambulâncias informa que não pode fazer nada, só se a mulher estiver ferida. Brincadeira? Que tal irmos até lá e acertá-la na cabeça para que um pouco de sangue corra e a ambulância venha? Não, ela não está de brincadeira e ainda completa, dizendo tratar-se de problema para o setor de assistência social da prefeitura, que, sem sombras de dúvida, não trabalha no domingo.

 O cerco se fecha, digo adeus ao moço, cujo nome nem sei, assim como nem imagino qual seja o da mulher ainda estendida no chão frio da rua, na manhã chuvosa de domingo. Mas isso tem importância? Não somos todos, antes de tudo, cidadãos do mundo? Não é isso o que penso e defendo? Não estamos de alguma forma, todos, ligados?

 Continuo meu caminho em direção à praça. Lá corre solta a “festa popular” do prefeito. Panis et circensis, como diria Caetano. Filas enormes para receber guloseimas baratas... de graça e shows de conjuntos duvidosos no palco. A música invade o ar, entremeada pela voz do locutor que diz as frases costumeiras, com a entonação esperada. O povo toma conta da praça, estou ansiosa para encontrar alguém, e as viaturas da guarda municipal estão um pouco longe, do outro lado da praça. Tenho que me desviar do povo, da menina com o tênis desamarrado, dos dois travecos lindos, mas em trajes de alto verão... Até me esqueço de procurar meu amigo ao lado da barraca de artesanato.

 Quando consigo passar pelo povo vejo dois guardas municipais em uniformes, dirigindo-se às suas viaturas que estão ao lado de ... Pasmem!!! ... de uma mini pista de esqui que o prefeito montou na praça, armações de metal enormes cobertas por placas de gelo, mantidas em água corrente por um caminhão-pipa estacionado na rua lateral. Não posso deixar de pensar nos moradores dos diversos bairros cuja água só chega de madrugada, para cessar nas torneiras logo de manhã.

 Mas, enfim, um alento. O guarda municipal negro, alto, belo e sarado é meu conhecido dos tempos de prefeitura, quando eu trabalhava na divisão de cultura. Explico o caso e ele se desculpa me repassando toda a burocracia... Jogo com a compaixão.

 - E se fosse alguém da sua família?

 Ele diz que nada pode fazer em caso de excesso de bebida. Argumento, dizendo que não sabemos se a mulher corre algum risco. Ele se rende e promete ir até o local onde está a desconhecida, estendida no chão frio.

 Pego o celular para localizar meu amigo, pois a praça está cheia. Sem perceber, estou entre as pessoas de uma fila. E uma amiga me encontra:

- O que você tá fazendo nessa fila do algodão-doce?

 Damos boas risadas e vamos juntas atrás do meu amigo. Dou alguns passos e me viro a tempo de ver a viatura da guarda municipal saindo da praça. Uma esperança...

 Enfim, encontro meu paciente amigo e logo engatamos um papo a três. Por uns divertidos momentos eu me esqueço da mulher estendida na ladeira, no chão frio, naquela manhã chuvosa.

 Mas logo avisto um senhor alinhado, traje entre o clássico e o esportivo. Não tenho dúvidas. Sem avisar meus amigos, vou a passos rápidos até ele... E chamo:

- Seu Miro!!! – é Miro Manfredi o vice-prefeito eleito. É com ele mesmo!!!

 O homem recebe-me com ares de quem está sendo cumprimentado... pela vitória nas urnas, certamente. Mostra-se altivo e orgulhoso. E me dá um beijo.

 Mal sabe que essa oportunidade de um inocente beijo pós-eleitoral em meu rosto também terá um preço. Como muitos dos votos que ele e seu companheiro de campanha receberam.

 Logo desabo a falar da mulher caída na rua, urinada e com a pele arroxeada pelo frio. Dos bombeiros, guardas municipais, setor de ambulâncias, assistência social... De todos que não se importam... Porque o sistema e a burocracia são mais importantes... que as pessoas... Falo de órgãos ligados à prefeitura que ele assumirá como vice-prefeito a partir de primeiro de janeiro do próximo ano, 2009.

 O homem ouve interessado, às vezes surpreendido, e até mostra ares de preocupação, mas no fim da conversa, está impaciente. Ensaia a saída, rápido, prometendo tomar providências. Divirto-me ao ver que já incomodo o vice-prefeito, antes da posse e durante a festa da vitória.
Volto aos meus amigos e o dia parece que vai continuar sem incidentes. Logo estamos rindo novamente, descontraídos... Sei que a mulher foi retirada da rua. Sei também que ninguém... ou quase ninguém, se importa. Mas eu me importo. E isso, para mim, é o suficiente.


Foto: Sílvia Mello

Twitter: http://twitter.com/SilviaMello23

DEUS É FIEL

sexta-feira, 15 de abril de 2011

VIVÊNCIAS
















As passagens da vida podem ser encaradas como cenas de filmes, nas quais somos protagonistas de experiências dignas de heróis do cinema, mas que ficam no anonimato do dia-a-dia.


Como heróis e heroínas de nossa própria história, podemos retirar dessas cenas as lições de aprendizado e crescimento de que necessitam...os para viver livremente, sem o peso da culpa e a limitação do medo.


Vivenciar cada momento como aprendiz da vida é ter direito ao elixir da mudança ao final de cada jornada.


A fé em si mesmo, no processo da jornada, e em algo maior do qual às vezes nos apartamos, mas nunca deixamos de fazer parte, são os requisitos para caminhar e aprofundar vivências.


A jornada vivenciada vale a pena em cada passo do processo.


Ao final, mudamos interiormente, mas ainda somos os mesmos.


Viver...vivências.
 
 
Imagem: Google
 
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DEUS É FIEL

segunda-feira, 7 de março de 2011

PRECE À DEUSA


















Que neste dia
cesse toda a submissão
da alma feminina.

Sejam revelados e punidos
todos os atos
de incesto, pedofilia
e estupro contra meninas,
moças e mulheres adultas.

Denunciem-se todos os casos
de violência
psicológica, verbal
física, emocional
e social às mulheres.

Que nenhuma atitude
de bullying contra mulheres gordas,
“feias”, homossexuais,
em virtude
de sua aparência ou condição física,
orientação religiosa, cor da pele
ou vestimenta
passe desapercebida.

Criem-se e cumpram-se
as leis que protegem
as mulheres trabalhadoras
no seu direito à equiparação
de salários com os homens,
à gravidez, à licença-maternidade
e às creches.

Evapore-se todo tipo
de discriminação à mulher
por sua posição social, aparência
ou idade.

Que jamais sejam negados
às mulheres os direitos básicos
à saúde, educação, trabalho e informação.

Reservem-se a todas
as mulheres do planeta
o sagrado direito de ir e vir,
de ser e estar,
de cuidar e decidir sobre seu corpo
e o rumo de sua vida.

Que toda mulher desfrute do direito
de buscar livremente
o prazer e a felicidade.

Que todas as mulheres
da face da Terra
possam provar o gosto da
Paz, do Amor e da Liberdade.

E que toda mulher jamais
perca a vontade de sorrir.

Ó divina deusa
da proteção feminina
atendei essa minha prece
para que cada dia,
do nascer ao pôr-do-sol
possa ser chamado

Dia Internacional da Mulher.


"No Dia 8 de março de 1857, operárias de uma fábrica de tecidos, situada na cidade norte americana de Nova Iorque, fizeram uma grande greve. Ocuparam a fábrica e começaram a reivindicar melhores condições de trabalho, tais como, redução na carga diária de trabalho para dez horas (as fábricas exigiam 16 horas de trabalho diário), equiparação de salários com os homens (as mulheres chegavam a receber até um terço do salário de um homem, para executar o mesmo tipo de trabalho) e tratamento digno dentro do ambiente de trabalho.
A manifestação foi reprimida com total violência. As mulheres foram trancadas dentro da fábrica, que foi incendiada. Aproximadamente 130 tecelãs morreram carbonizadas, num ato totalmente desumano."
( Fonte: Pesquisa.com - Google)

Imagem:
Fragmento do painel criado e montado para o cenário da peça teatral Rosa Chock, pelo Núcleo de Teatro da Divisão de Cultura da Prefeitura da Estância Turística de Sâo Roque em março de 2002, para as atividades culturais da Semana da Mulher.

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DEUS É FIEL

domingo, 6 de março de 2011

"Uma vez eu li UM livro..."

Pensando sobre "por que ler?" neste domingo de Carnaval, viajei em direção a muitos outros pensares sobre o tema, que nunca será um tema fechado, pois leitores são “gente” e à gente não se aplicam fórmulas.
Há muitos projetos interessantes de in
centivo à leitura que dão resultado e isso discorrer sobre eles resultaria em uma ou mais teses.

Pessoalmente, incentivo as crianças ao meu redor a lerem, lendo com elas, espalho pilhas sobre o chão, o sofá, a mesa, e elas escolhem; também tenho como hábito só dar livros de presente, nos aniversários, Natais.

Sempre fui incentivada a ler e grifar e copiar trechos que mais gostava dos livros que lia pela minha mãe desde os sete anos. Aos onze anos eu lia o que queria, José de Alencar, Machado de Assis, Jorge Amado, Alexandre Dumas, Abade Prèvost e outros mais que encontrava nas coleções encadernadas do meu pai, sem qualquer indicação de alguém.
Mas confesso que nunca li Memórias Póstumas de Brás Cubas, que achava muito chato, e só vim lê-lo no ano passado, pois era inadmissível morrer sem ler esse clássico brasileiro. E confesso que li grifando... quase o livro todo!!!

Porém, a escola pública da época de adolescente foi um empobrecimento, voltada para uma quantidade pequena de sugestões para leitura, nivelando por baixo, e focada nas indicações para o vestibular. E isso deixou lacunas.
Enfim, há muito que se falar sobre o tema e cada um tem sua experiência peculiar, como resultado do que lhe veio da educação e das suas próprias características. Tenho quatro filhos e três lêem muito. Um deles leu sessenta clássicos em seis meses, quando decidia que curso superior iria fazer, já outro odiou ganhar um livro de poesias de Vinícius de Moraes da namorada...

Quando eu estive na prefeitura de São Roque como chefe de divisão de cultura, adquiri clássicos e outros livros para a biblioteca pública municipal, entre 2001 e 2004, e fiquei admirada de como não estava disponível para venda nem em editoras nem em distribuidoras, a obra de Cecília Meireiles.

Mas ainda me ocorrem três idéias sobre ler:
Italo Calvino em "Por que ler os Clássicos" começa dizendo que “os clássicos são aqueles livros dos quais, em geral, se ouve dizer: ‘Estou relendo’ e não ‘Estou lendo’...”. Ninguém admite, mas jamais haverá tempo para ler todos os livros importantes. O autor coloca também a idéia de que a cada momento da vida em que lermos de novo um clássico, estaremos lendo um novo clássico, porque não seremos a mesma pessoa, com a mesma bagagem anterior.

Sobre incentivo à leitura, fico com a idéia de Moacyr Scliar, que basicamente escreveu que num mundo onde pouco se lê, restringir e direcionar a leitura para determinados autores é diminuir ainda mais o número de leitores. Qualquer leitura pode ser uma porta aberta para o gosto pela leitura.

Certo dia, ouvi de uma cabeleireira, de poucos mais de trinta anos de idade, da qual admiro o senso prático e uma certa sabedoria de viver, a frase que me deixou perplexa e encantada ao mesmo tempo, pela simplicidade com que foi dita, que demonstrava nostalgia: “Uma vez eu li UM livro.”

Imagem: "Meninas Lendo" - Pablo Picasso


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quinta-feira, 3 de março de 2011

A PRAÇA

Ela já recebeu vários nomes, já foi Largo da Matriz, Praça Washington Luiz. Hoje, como em outros tempos, é Praça da Matriz. Mudou de nome, mudou de cara, mas é a mesma praça, guardando tantos segredos. Praça que presenciou muitos acontecimentos, imponentes, históricos ou simplesmente corriqueiros. Praça que ouviu... o burburinho dos saraus ao seu redor, discursos, vivas, som de rojões e fogos, juras de namorados, fofocas de comadres, reminiscências de aposentados, o canto dos pássaros.

Praça dos desfiles, das Cavalhadas, das festas religiosas, das procissões, dos comícios e shows, das bençãos e manifestações políticas. Praça do povo! Mudaram sua roupagem, seu visual, inúmeras vezes, é verdade, mas é a mesma praça. Praça de ontem, praça de hoje... Praça que presenciou tantas mudanças! Praça que já viu homens de cartola, gravatas borboleta, fraque, homens de chinelo, bermuda, calça desbotada, garotos com bolas de gude e skate; praça que admirou desde os trajes recatados das mulheres, costume chegando aos pés, até a nudez dos destaques de Carnaval.

Palco de lazer quando, nas noites quentes de domingo, as famílias iam ao “Largo” e quando o divertimento era “dar voltas na praça”, mulheres de um lado, braços dados, homens do outro, mãos no bolso, “tirando linha”. Praça que já testemunhou o nascimento de grandes amores e desencontros.

Praça que sentiu perfumes mil, o aroma das flores, das mulheres sábado à noite, o odor de mendigos e bêbados

Praça dos turistas, do bate papo, dos engraxates, das rodas de capoeira, dos vendedores, das barraquinhas, dos encontros, das Alvoradas. Praça da alegria... Praça das bandas de música! Praça dos Festivais de Inverno...

Praça que nasceu com o sobrado de taipas de Pedro Vaz. Praça que, nas manhãs de domingo, surpreendia o fundador dirigindo-se à Igreja pelo passadiço que a ligava à sua casa, para assistir à missa.

Largo da Freguesia, da Vila, praça da Cidade, da Estância Turística!

Praça que já abrigou à sua volta tantos moradores ilustres. Praça do Barão de Piratininga, praça de Quirino de Aguiar, praça de Xavier de Lima...

Praça das primeiras construções, praça do “casarão”, da Loja Grande, da Casa da Câmara, praça da casa de dona Amasília, praça da Literária, da Rádio Cacique, do Bar Chic, Bar Guarani, praça do Cine Central, praça da Igreja Matriz.

Praça de escravos e senhores, dos abolicionistas, dos monarquistas e republicanos, dos políticos de esquerda e direita, dos atos autoritários e democráticos, praça dos são-roquenses e estrangeiros.

Praça que ficou marcada por grandes datas, praça da recepção ao Imperador, dos festejos pela Abolição, da euforia pela República, da inauguração da estrada de rodagem, da comemoração do Centenário da Fundação, praça dos 16 de agosto e dos 7 de Setembro.

Praça que já recebeu Presidentes da República, artistas famosos e simples visitantes anônimos.

Praça do chão de terra, de pedras, sem calçamento, praça dos bancos de madeira e de cimento, praça do chafariz. Praça da iluminação a lamparinas de azeite, praça dos lampiões de gás, praça da luz elétrica.

Praça dos carros de boi, do primeiro automóvel que chegou roncando e espalhando fumaça, praça dos motoristas de táxi, do trânsito confuso e das discussões sobre ele. Aberta ou fechada? Praça velha, praça jovem, ainda não encontrou sua verdadeira identidade...

“A mesma Praça, o mesmo banco...”, os versos do poeta, acredito, são os versos de todas as praças e também os da nossa. Não importa se as flores não são mais as mesmas e se também o jardim não é o mesmo. Não importa se nem tudo continua igual...

O que importa, é que a Praça é nossa!

Que o povo viva a Praça!

Imagem de domínio público da cidade de São Roque
autoria ignorada

Twitter: http://twitter.com/SilviaMello23

DEUS É FIEL