terça-feira, 4 de outubro de 2011

PALAVRAS NO ESPELHO



A palavra meia
enganava
na beleza da frase

A palavra rude
lapidava
na pressa da surpresa

A palavra simples
iluminava
no saber da oferenda

A palavra nua
escondia
a clareza da intenção

A palavra lúdica
encantava
na seriedade do verso.




Imagem em novoespelhosecreto

Twitter:
http://twitter.com/#!/SilviaMello23
 
DEUS É FIEL


domingo, 11 de setembro de 2011

Melhor do que comprar sapatos












A manhã se entregava promissora só porque era domingo.
Sair às ruas seria natural. E eu fui levada pelas duas pequenas poudles.
Na volta do passeio, percorri as antigas e estreitas ruas do centro, de volta à casa.

E na sombra do outro lado da rua, lá estava ele, cabelos muito curtos, óculos finos, nem alto nem baixo, nem moço nem velho, mais magro do que gordo.
Um homem diante da vitrine de calçados femininos.
A cena era no mínimo interessante, o vidro espelhava sua imagem, enquanto eu diminuía meus passos, esperando que as cachorrinhas cheirassem cada centímetro das pedras do chão. E eu estivesse livre para soltar meu espírito repórter e investigar.

O que levaria um homem, numa rua semi-deserta, na manhã de domingo a espreitar tão divinamente a vitrine de sapatos de mulher, ainda que a loja estivesse fechada?

E observei atentamente, por trás dos ombros do homem, seu olhar percorrendo as inúmeras opções. Desde as sapatilhas coloridas com laços e modelos abertos na ponta, subindo para os modelos de sapatos fechados com plataforma, e os de saltos médios, elegantes, até o alto da vitrine onde figuravam os modelos com saltos muito altos e plataformas à drag queen. 

Ele se entregava embevecido à admiração por cada modelo, minuciosamente.
E eu me lançava no redemoinho da imaginação. Estaria ele escolhendo um presente para sua mãe? Hummm não! Os modelos o seduziam... Talvez para sua esposa, namorada, amante?
Se eu contasse a alguém mais malicioso cogitaria que era um fetiche por pés ou ele estava escolhendo um modelo feminino, secretamente, para si mesmo. 

A aura de mistério crescia. Eu poderia simplesmente atravessar a rua e oferecer ajuda, perguntar para quem era o presente.
Mas meu espírito detetive me manteve à distância.
Tanto que ele seguiu seu caminho, não sem antes dar uma última olhada à profusão de sapatos ao estilo Cinderela - apenas um pé de cada modelo, e certamente, imaginar a beleza de um corpo feminino conduzido por eles.

Enquanto o homem subia a rua, em direção à praça, diminuindo de tamanho a cada passo, eu me encaminhava à esquina e a dobrava no exato momento em que ele desaparecia de minha visão, no topo do calçadão. 

O homem seguiu sem me revelar seu mistério, mas observá-lo em sua devoção diante da vitrine de calçados femininos foi, naquele momento, melhor do que comprar sapatos.
Nem sempre o que se revela é melhor do que a aventura de imaginar o que seria... 


Imagem em dicafeminina

Twitter: http://twitter.com/#!/SilviaMello23

DEUS É FIEL



Do que o amor pede... e o que pedir ao amor?


















O amor pede atração dos olhos
empatia da voz
química do gosto

 
O amor pede cumplicidade
pacto
fidelidade

 
O amor pede aceitação
compreensão
entrega

Se quer amor, não peça nada
mas não aceite o que vier

Escolha quem enxerga a sua alma
vibra com a sua voz
estremece com o seu gosto
é fiel
compromete-se com você e com a relação
elogia sua beleza
admira seu talento
aceita seu jeito único de ser
compreende seu modo de estar no mundo
respeita seus limites
e se entrega sem reservas.


Imagem: "Nu com Copos de Leite", Diego Rivera (1944)/

Twitter: http://twitter.com/#!/SilviaMello23


DEUS É FIEL

sábado, 18 de junho de 2011

UM DIA DE CADA VEZ













Hoje eu escrevo para você que, como eu, foi afetado (a) pelo beber excessivo de alguém.
E não estou aqui para dizer das estatísticas da Organização Mundial de Saúde sobre a doença que mata “socialmente”, nem para criticar a falsa alegria dos bares, e tampouco para fazer a apologia dos sóbrios.
 
Apenas conto o que vivi...

Se você se sente inadequado nas reuniões sociais, meio peixe fora d’agua, meio estranho, se acha que sua família está diferente das outras e você mesmo começa a ter atitudes um pouco estranhas e até ser tachado de maluco, a boa notícia é que você não está sozinho e a má... é que você pode ficar maluco mesmo. Se não tomar providências.

O beber excessivo de alguém afeta quem convive com ele de diversas maneiras: provocando a solidão e o isolamento, as agressões físicas e verbais, a tortura psicológica, e se reflete nas relações sociais, na vida profissional e financeira, no relacionamento afetivo e sexual, na educação dos filhos e no bem-estar emocional da família.

Mas, o beber excessivo de alguém faz seu maior estrago no que se chama hoje, ainda que não clinicamente, de co-dependência. O termo não é novidade, mas reúne em seu significado específico, nascido do relacionamento com um alcoólico, diversos aspectos do comportamento de quem convive com um dependente, seja ele de álcool, seja ele dependente químico de qualquer natureza.

Em linhas gerais, o “co-dependente” de um alcoólico desaprende de cuidar de si mesmo para tentar mudar o outro, mudar o beber excessivo do outro e se esquece de colocar seu foco na própria vida. Suas atitudes e toda a sua estrutura emocional se alteram, provocando conseqüências que vão do isolamento social ao suicídio ou patologias graves que têm conseqüências psicológicas e físicas que podem levar à morte. Diversas doenças diagnosticadas hoje têm sua relação claramente ligada à co-dependência.

E foi lendo o livro Mulheres que Amam Demais, de Robin Norwood, que acordei definitivamente para a questão da seriedade das conseqüências de querer mudar o beber excessivo de alguém. Visto por muitos como mais um livro de auto-ajuda, esse best seller dos anos 1980, que encontrei há poucos anos, aborda com precisão a ligação entre a dependência emocional, para quem tem a predisposição, e o alcoolismo.

Ou seja, mulheres, no caso do livro, mas estende-se aos homens também, com predisposição emocional unem-se a alcoólicos e fecham o ciclo da co-dependência. Aí funciona a lei da atração. E o livro traz ainda um impressionante gráfico comparativo entre a evolução do alcoolismo no dependente e a da co-dependência em quem convive com um. Em ambos os casos, a conseqüência pode ser a morte. Por motivos diversos, na maioria das vezes não associados ao alcoolismo.

Mas o livro mostra também caminhos para a recuperação. E foi depois de lê-lo que procurei o Al-Anon, Associação de Familiares e Amigos de Alcoólicos, há alguns anos. E recuperar-se da convivência com um alcoólico é colocar o foco em si mesmo e como afirma um dos lemas do grupo: Viva e Deixe Viver.

Fácil? Não para quem está acostumado a controlar, quem está na ilusão de que pode controlar o outro e suas atitudes. Deixar a parceria com o álcool é algo que somente a pessoa pode decidir. Não cabe a mais ninguém. Reaprender a cuidar de si mesmo, no caso do co-dependente já é muito.

E a receita tem ingredientes diversos. Desligar-se emocionalmente das atitudes do alcoólico. Sair do controle, e entregar tudo o que não pode controlar a um Poder Superior, seja ele um deus, o próprio Deus, a força da natureza ou o vazio em que crê um ateu. Sem dúvida, é um caminho espiritual, não importando em que você acredite. E isso é apenas o começo.

Compartilhar experiências, ler sobre o tema e praticar a programação sugerida são os instrumentos básicos para essa recuperação. A integração quebra o isolamento e a informação combate a negação. Mas a decisão e a atitude são escolhas de cada um. Os resultados são surpreendentes. Presto serviço coordenando reuniões de estudo no Alanonport, um grupo online, e comprovei isso em depoimentos de diversas pessoas. Além da minha experiêncie pessoal.

De resto, é confiar em si mesmo e no processo da vida.

Mas o milagre é Viver um dia de Cada Vez.


Literatura não Al-Anon indicada:
Co-Dependência Nunca Mais e Para Além da Co-Dependência, de Melody Beattie, editora Record.

Imagem: sorisomail

Twitter: https://twitter.com/#!/SilviaMello23 
DEUS É FIEL

domingo, 12 de junho de 2011

NAMORE-SE














Há dias que o Amor ocupa espaços
não importa se em apelos de outdoor
em fotos de flores irreais
ou em clips de beijos gravados em estúdio
esqueça que há convites da propaganda

Aproveite o dia
despertado por cafés da manhã de filme
alimentado por bombons
perfumado por pétalas de rosas vermelhas
encantado por dizeres gravados em cartões
enfeitado por fitas coloridas
mimado em caixas de presente
enfeitiçado por fantasias de motel
acariciado por beijos de inverno
aqueça um relacionamento
assuste-o se for o caso
surpreenda-o
mesmo que esse amor seja só um sonho

Namore-se
desperte-se
nutra-se
mime-se
perfume-se
encante-se
enfeite-se
acaricie-se
aqueça-se
presenteie-se
surpreenda-se
diante de sua imagem no espelho

Ame-se antes
(redundante?)
espante a poeira das emoções
limpe o bolor da alma
combata a ferrugem da auto-estima
esfregue ervas de frescor na alegria
abra janelinhas de luz na casa da mudança
caminhe de olhos abertos
espreite ao redor
arrisque-se

“O Amor está no ar”...
capture-o!

 
Imagem: Google

Twitter: https://twitter.com/#!/SilviaMello23


DEUS É FIEL

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Tecendo com Palavras



















Teci
fios em prosa
letras em linhas
costuradas
a renda da palavra
concebida
um conto tecido
em vivas cores
diálogos
cena a cena
frases nuances
num romance

Teci
amores
em finos fios
versos alinhavados
pontos de encontro
laçadas frouxas
mãos dadas
trechos em relevo
ajustes na linha
na rima
um abraço
a trama a-final

Beijos num enlace
laços em arremate

Tecido
o livro
capítulos de pano
ponto a ponto
em agulhas de papel
linhas de vida
tramada
palavras num tear
contra-ponto
o enredo
lido
na malha criada
entregue

Em olhos de leitor.


Imagem: tecendocompalavraseimagens.blogspot.com


DEUS É FIEL

domingo, 29 de maio de 2011

PRINCESA












 
Entre a mata e o prédio da antiga tecelagem onde trabalhávamos com
Cultura, seria apenas mais uma manhã de intensa atividade ao som das aulas de música, no movimento dos passos de dança e na intensidade das interpretações dos ensaios do núcleo de teatro, não fosse a cena visível na entrada dos imensos salões, antes ocupados por teares e então abrigando exposições de arte, performances de dança e peças teatrais.

Um pouco além da imensa chaminé, avistamos os quatro pequenos cães, filhotes cobertos de sarna. Como chefe na divisão de Cultura, o fato chegou-me. Que fazer? Telefonei a uma veterinária que sugeriu sacrificarmos os quatro animaizinhos. Saída fácil e higiênica, não?

SACRIFICAR OU ACOLHER?

Porém, minha consciência era outra e desafiar era o propósito. Mas quem ficaria com quatro filhotes de vira-latas, cobertos de sarna, numa manhã aparentemente despreocupada? Eu gostava de me complicar, para mim era como fazer arte. Enquanto eu pensava, dois dos cãezinhos foram levados. Sobrou o casal mais adoecido. Então, decidi que cuidaríamos deles ali mesmo, no local de trabalho. Foi uma ventania, todos ajudando, compramos os remédios, ração, leite, e começamos o mutirão: dar banho, passar a loção anti-sarna, alimentar, cuidar, brincar, dar carinho aos dois sarnentos.

Os banhos dávamos num local atrás da grande cozinha azulejada, onde havia um antigo tanque de lavar roupas. O minúsculo banheiro quase sem utilidade, ao lado das salas do prédio da administração, foi destinado a abrigar os cãezinhos à noite. E então produzimos a parafernália de jornais e paninhos para cobrir o chão e aquecê-los. E, de manhã, novo mutirão e limpeza do local. Tudo observado por alguns olhos de repreensão, expressos em vozes veladas. 

Nos finais de semana, quando o ambiente de trabalho ficava fechado, eu e uma das queridas funcionárias nos revezávamos para os cuidados e atenção ao casal de cãezinhos órfãos.

ATITUDE

Durante a semana, os cães já livres da sarna e com os pelos em crescimento, brincavam nas áreas livres daquele imenso paraíso rodeado de verde. Durante o intervalo das aulas de ginástica olímpica, as meninas saíam da sala e iam brincar com os pequenos animais, cada vez mais vivos. Numa manhã, alguém se apaixonou pelo cãozinho macho e o levou. Restou-nos a pequena fêmea, que não era o protótipo da beleza, mas tinha a determinação marcada nos pelos negros e mais brilhantes a cada dia.

Resolvemos manter ali nossa mascote. E lhe demos o nome de Princesa, nada mais justo. Comprei uma coleira e uma caminha, ambas vermelhas, e durante o dia ela permanecia em minha sala, por vezes dando mordidinhas nas canelas das pessoas a quem eu recebia para alguma reunião de trabalho. O fato foi considerado indigno e um vereador mencionou na tribuna da Câmara que eu estava transformando a Brasital – nosso local de trabalho – em um canil. 

Com o tempo, Princesa cresceu e tivemos que encontrar um lar de adoçãom onde a cachorrinha foi definitivamente.
Mas, nunca me arrependi da atitude de acolher os pequenos sarnentos. Além de alimentar minha alma de ser vivente nessa Mãe Terra, acredito ter sido um exemplo para as crianças que presenciaram todo o movimento.

PRINCESA e seu irmãozinho, salvos do abandono


Imagens: Sílvia Mello


DEUS É FIEL